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O meu joanete embrião

O meu joanete embrião

Basta querer

A corrida tem sido durante algum tempo o tema de escrita deste blog. Mas só há uns tempos é que me apercebi da verdadeira razão da importância da corrida na minha vida nos últimos tempos.

Quando eu era pequena, odiava correr. Fazia parte da equipa de basket da escola, mas mesmo assim, odiava mesmo correr e tinha raiva de quando me falavam no assunto. Digamos que tinha uma certa parte do corpo um bocado avantajada e sentia que ao menor movimento, toda eu abanava. Mesmo assim, sempre que havia oportunidade, qualificava-me para os campeonatos distritais. Não pensem que nesses dias me transformava e que corria para xuxu. Não… Eu sou de Tomar… Não havia propriamente muitas pessoas do sexo feminino a quererem ir a Santarém correr no meio da lama, então lá ia eu, fazer a minha caminhada distrital, só para o convívio (isso sempre no meu ADN).

Já em idade menos criança, comecei a correr mais como deve ser. Fui desafiada por uma amiga a atravessar a ponte 25 de abril. Achei que ia só ver as vistas e tirar umas selfies, mas o orgulho fez-me tentar fazer a corrida sempre a correr. Consegui. Contudo, o meu orgulho começou a meter-se comigo. Estava eu de peito feito toda contente de ter corrido 7,9 km sempre a correr e um senhor nos seus 70 anos começou muito gabarolas a dizer que tinha ido a todas as edições da meia maratona. Para ser sincera, senti-me humilhada e meti na cabeça que no ano a seguir ir fazer a meia maratona de Lisboa.

No ano a seguir, em 2016, com 15 treinos feitos num ano e apenas um com mais de 10 km, consegui terminar a meia maratona. Num tempo miserável, claro está, porque ninguém no seu perfeito juízo deve pensar em tempos treinando esta miséria. Mais uma vez, terminei a prova a achar que me tinha superado, mas comecei a olhar para o lado e a frustração voltou. Porque é que eu não me tinha esforçado mais? Porque é que não pus o objetivo de correr a prova em menos de 2 horas?

Comecei-me a focar nos anos seguintes nesse objetivo mas foram surgindo dificuldades. Projetos difíceis que tornavam os treinos impossíveis, lesões de pseudo-runner que impediam os treinos e que me mandaram para a fisioterapia, manhãs frias e um cobertor super fofinho lá em casa. Havia sempre um milhão de desculpas para não treinar o que devia para conseguir alcançar os meus objetivos desportivos. Mesmo assim, as 5 meias maratonas de 2017 e 2018 foram feitas sem nenhum tipo de dor e sempre de sorriso no rosto. Cheguei a outubro de 2018 e tão confiançuda que estava, inscrevi-me na maratona de Aveiro. Eis que surge o Osvaldo. O Osvaldo foi um senhor tumor que me apareceu e que me desorientou um bocado os planos que eu tinha para 2019. Chamo-lhe Osvaldo porque acho que já que foi tão bom assistente a desmarcar tanta coisa da minha vida, devia ter um nome (nunca serei dos tipos de líder que não sabe o nome dos assistentes).

Um dos planos que o Osvaldo me adiou foi o da maratona de Aveiro e não querendo ser spoiler, a de Aveiro também não vai ser este ano. Fiz tudo o que o Osvaldo me mandou fazer em 2019. Aliás, em vez da maratona de Aveiro, tive uma maratona com bem mais obstáculos para enfrentar. Parecia mais do que óbvio que os objetivos desportivos não iam ser para 2019, afinal de contas, o Osvaldo é que mandava. Acabei a quimioterapia a 1 de Abril e sim… parecia mesmo mentira. A maratona de Aveiro era a 28 de abril. Lembro-me perfeitamente de receber um email com o dorsal e de ter ficado o dia inteiro de trombas. Eis que me passou uma epifania qualquer pela cabeça e decidi despedir o Osvaldo. Eu é que ia mandar na minha agenda. Aqui sim, que se lixassem os tempos, mas eu ia a Aveiro, nem que fosse correr só os 10 km. Assim foi. Foi o meu pior tempo numa corrida de 10 km mas foi a mais prazerosa. Pela primeira vez, corri uma corrida por mim, sem comparações, e para mim. Cheguei ao fim e senti que tinha superpoderes. Nada nem ninguém me podia parar. Pela primeira vez, não me senti nada frustrada. Percebi que compararmo-nos é autosabotarmo-nos. Retomei os treinos e dediquei-me a sério a isto da corrida até novembro. E sabem que mais? Finalmente, consegui baixar das 2 horas numa meia maratona, em novembro.

Porque é que eu gosto tanto de correr? Por causa da superação. Se olharmos para a corrida como metáfora para a vida, as duas são bem parecidas. Quando corro meias-maratonas, chego ali ao km 16 e só penso na minha caminha quentinha. Ora bem, quantas vezes na vida não nos surgem dificuldades que nos fazem querer fugir e voltar para o quentinho do lar? Na vida vamos ter sempre cobertores quentinhos que nos vão chamar para a nossa zona de conforto. Nisto das corridas, 15% é corpo e 85% é mente e se tivermos disciplina, tal como na vida, vamos conseguir ultrapassar todos os obstáculos e atingir todos os objetivos a que nos propusermos.

Se eu consegui correr 10km nas circunstâncias em que o fiz, todos o conseguem fazer.

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